Filósofa Desafia: “Racismo é Problema Branco”, Afirma Nadia Yala Kisukidi

A filósofa e escritora francesa Nadia Yala Kisukidi, em passagem pelo Brasil, reacende o debate sobre o racismo ao afirmar que este é um problema inerente à população branca. A declaração surgiu após ser impactada pelo relato de uma mulher negra durante uma transmissão ao vivo, que expressava o desejo de se libertar do “fardo” racial que seu corpo carregava.

Para Yala, esse sentimento representa uma experiência de dissociação, uma forma de escape diante do peso social imposto pelo racismo. A filósofa, nascida em Bruxelas e professora na University of Paris 8, explora essa temática em seu romance “A Dissociação”, lançado recentemente no Brasil. A obra narra a história de uma menina que desenvolve a habilidade de separar a mente do corpo como mecanismo de defesa.

A autora revela que sua escolha pela filosofia foi, inicialmente, uma tentativa de se libertar de seu próprio corpo, buscando refúgio na razão. Contudo, percebeu a impossibilidade dessa dissociação completa. Yala se inspira em Frantz Fanon para explicar como o racismo pode tornar a experiência corporal inóspita, transformando o corpo em propriedade alheia, definindo-o apenas pela raça.

Diante dessa realidade, a filósofa aponta para dois caminhos: a fuga de si ou a reivindicação da própria existência física. Em sua literatura, ela explora a primeira opção, criando personagens que anseiam por um mundo sem raça ou cor de pele.

Yala ecoa o pensamento da intelectual Lélia Gonzalez ao reiterar que o racismo não é um problema das pessoas negras, mas sim das pessoas brancas. “O racismo é uma coisa branca. É o fardo das pessoas brancas”, sentencia, enfatizando que mulheres negras são forçadas a se defender de algo que não criaram. Ela defende que a luta antirracista deve ser liderada por aqueles que se beneficiam do sistema, e não apenas por meio de ações isoladas.

A escolha de Yala por uma linguagem que mescla o realismo com o maravilhamento e a hibridez reflete sua própria identidade multifacetada, reconhecendo-se como africana, congolesa, europeia e francesa. A filósofa busca resgatar tradições europeias marginalizadas, desafiando a hegemonia do pensamento racionalista.

Durante sua passagem pelo Brasil, Yala participou de um evento no Espaço Feminismos Plurais, onde compartilhou suas ideias e experiências com o público presente. O encontro ocorreu um dia antes da Marcha das Mulheres Negras, um evento que clama por reparação histórica e bem viver.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *