A recente autorização do Ibama para que a Petrobras realize perfurações exploratórias em águas profundas na Foz do Rio Amazonas reacendeu a discussão sobre os limites da política energética brasileira e seus potenciais impactos ambientais. A licença, que permite a exploração de um poço em busca de petróleo e gás, suscita preocupações sobre os riscos envolvidos, mesmo se tratando apenas de uma fase de testes geológicos.
Um especialista em economia ambiental, Alessandro Azzoni, adverte que a perfuração no bloco FZA-M-059, embora utilize técnicas avançadas de exploração offshore, carrega consigo perigos consideráveis. Segundo ele, a operação em águas profundas, por si só, já eleva os riscos ambientais. O licenciamento pelo Ibama, que levou mais de cinco anos para ser concedido, evidencia a complexidade do projeto e as preocupações em torno de sua segurança.
Azzoni alerta para a possibilidade de derramamento de óleo e vazamento de outros contaminantes, mesmo em pequenas quantidades, que poderiam causar danos irreversíveis aos recifes de corais recentemente descobertos na região e à vasta fauna marinha, comprometendo toda a cadeia alimentar e a atividade pesqueira local.
O especialista critica a Petrobras, relembrando o histórico da empresa marcado por mais de 3 mil multas aplicadas pelo Ibama nos últimos 10 anos, totalizando centenas de milhões de reais. Esse histórico, na visão dele, deveria tornar o processo de licenciamento ainda mais rigoroso.
Apesar dos planos de contingência e das simulações de emergência, Azzoni argumenta que o risco operacional permanece elevado, com o potencial de desencadear uma catástrofe ambiental em águas profundas. Ele também chama a atenção para os impactos econômicos indiretos das operações petrolíferas.
Ademais, Azzoni critica uma aparente contradição entre o discurso ambiental do governo e a decisão de autorizar a perfuração, especialmente considerando a proximidade da COP30, conferência climática da ONU que será sediada em Belém, no Pará. Ele teme que essa decisão possa ser vista como um ponto negativo para o Brasil nos fóruns globais, em um momento em que se espera uma postura mais firme em relação à agenda de sustentabilidade.
A Petrobras, por sua vez, informou em nota oficial que cumpriu todas as exigências do Ibama e que a operação seguirá os mais altos padrões internacionais de segurança e responsabilidade ambiental. A fase exploratória tem duração prevista de cinco meses e visa avaliar a viabilidade comercial da exploração de petróleo e gás.
Organizações ambientais e movimentos sociais já anunciaram que pretendem recorrer à Justiça contra a decisão do Ibama, classificando-a como um retrocesso em relação às políticas climáticas prometidas pelo Brasil.


